Foram corrigidos diversos erros tipográficos, que por serem de pouca importância, e não afectarem o significado do texto, não merecem especial referencia.
No livro impresso a utilização de aspas (« ») foi feita de forma muito irregular.Recorremos à versão original da obra em francês de forma a resolver todas as situaçõesque nos pareceram duvidosas. Isto resulta numa ligeira diferença em relaçãoao livro impresso em português (Lisboa, 1904), mas mais fiel ao que o autor pretendia.
COLLECÇÃO HORAS DE LEITURA
PAULO BOURGET
A AGUA PROFUNDA
LIVRARIA EDITORA
GUIMARÃES & C.ª
108—Rua de S. Roque—108
LISBOA
1904
{5}
Ha certos proverbios que, passando d'um paiz para outro, tomam umaphysionomia tão differente, que bastaria uma tal variação para provar que oscaracteres nacionais se conservam na realidade radicalmente distinctos eirreductiveis.
O francez, por exemplo, diz, a respeito d'um homem feliz «que nasceuimpellicado», e o inglez «que nasceu com uma colher de prata nabocca».
Dois rifões, duas raças, dois destinos: d'um lado um povo voluvel,espirituoso, elegante, amando a galanteria, apaixonado pelo prazer enaturalmente divertido;—do outro lado uma nação avida, dominada pelo positivoe que até no luxo quer o conforto.
São aquelles dois traços caracteristicos que resaltam d'um primeiroproverbio; vejamos outro.
D'alguem muito circumspecto diz o francez:{6}«não ha peor agua do que a agua quieta», o italiano: «asaguas tranquillas destroem as pontes» e o inglez: «as aguastranquillas correm profundas». E os trez teem razão.
O francez é tão expansivo e sociavel, que uma alegria que não communique nãoé completa; um pesar que guarde no intimo do seu coração é um dobrado pesar.Julga os outros por si, e, na presença d'alguem menos expansivo, estádesconfiado.
O italiano, por natureza reflectido e previsto, possue a desconfiança nomais elevado grau. Vê na reserva uma ameaça, no silencio uma cilada, é queMachiavel era de Florença, do paiz aonde a astucia é sempre acompanhada dagravidade, e o machiavellismo fez carreira. Orgulhar-se-ha com a bellaallegoria que pinte uma arca de Noé, resplandecente de luz, sobre o glauco Arnoou o Tibre flávo.
Nos inglezes o espirito realista é acompanhado da mais tacita e meditativamelancolia.
Observae uma carta do seu paiz e vereis como Manchester está nasproximidades dos lagos e do condado de Wordsworth.
A cada momento empregam um aphorismo de voracidade rapace. Teem comtudo umagraça rude que não perdem ainda mesmo nos momentos mais criticos. E a verdade éque o Anglo-Saxão se nos apresenta na sua historia e na sua litteratura:duramente brutal, quando é brutal e excessivamente sonhador, quando ésonhador.
Estas duas pequenas phrases encerram uma grande verdade.{7}
É, porém, justo que se diga que os casos de psychologia ethnica teeminnumeras excepções.
A prova está na recordação d'esse poetico proverbio inglez sobre as«aguas profundas» que o meu espirito me sugeriu—ó ironia—noproprio momento em que pretendo contar uma aventura parisiense, succedida nooutomno passado, e cuja heroina não tem, com certeza, nas veias a minima gottade sangue britanico. E, comtudo, nenhuma imagem me parece resumir melhor aimpressão que em mim produziu esse pequeno drama sentimental, quando me foireferi